Angola aposta na impressão 3D para produção de próteses e órteses - Antena Web Notícias


2026-09-13 18:24 por Celso Gamboa

Angola está a dar os primeiros passos para incorporar a impressão 3D na produção e adaptação de próteses e órteses, numa iniciativa que pretende aproximar a inovação tecnológica das necessidades de pessoas que perderam membros, nasceram com alterações congénitas ou vivem com limitações de mobilidade.

A iniciativa está a ser implementada no Centro Ortopédico e de Reabilitação Polivalente Dr. António Agostinho Neto (CORPAAN), em Luanda, no âmbito do Programa de Formação dos Recursos Humanos em Saúde (PFRHS), através do Instituto de Especialização em Saúde (IES) e da Unidade de Implementação do Projeto (UIP), em parceria com especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Brasil.

Ao todo, 60 profissionais de diferentes áreas foram capacitados para trabalhar com esta tecnologia. O grupo inclui especialistas de ortoprotesia, fisioterapia, terapia ocupacional, enfermagem, medicina, engenharia e tecnologia, numa abordagem que pretende juntar conhecimento clínico e capacidade técnica no mesmo processo.

Para quem depende de uma prótese para voltar a caminhar, trabalhar ou realizar tarefas básicas do quotidiano, a tecnologia representa mais do que uma inovação. Uma prótese adequada pode significar recuperar autonomia, reconstruir a confiança e reduzir a dependência de familiares ou de terceiros.

É precisamente nessa dimensão humana que a impressão 3D pode ganhar importância. Em vez de um dispositivo produzido de forma padronizada, a tecnologia permite trabalhar a partir das características individuais do paciente. O processo pode envolver avaliação clínica, digitalização, modelação tridimensional, desenho, impressão, montagem, adaptação e acompanhamento durante a reabilitação.

Segundo as informações divulgadas sobre a iniciativa, a tecnologia poderá beneficiar pessoas amputadas, crianças com alterações congénitas dos membros, pacientes com deformidades ortopédicas, vítimas de acidentes, pessoas com sequelas neurológicas e outros cidadãos que necessitem de dispositivos de apoio à mobilidade.

O CORPAAN recebeu uma impressora 3D Creality K1 Max, que deverá permitir às equipas continuar a componente prática da formação e avançar progressivamente para a produção local. A aposta pretende reduzir gradualmente a dependência de soluções produzidas fora do país e criar conhecimento técnico dentro das instituições nacionais.

A transferência de competências será feita de forma gradual. Numa primeira fase, especialistas brasileiros deverão apoiar o desenho e a supervisão técnica, enquanto os profissionais angolanos participam nas diferentes etapas do processo. A meta é que, progressivamente, as equipas nacionais alcancem autonomia na produção e adaptação dos dispositivos.

O Gestor Técnico da UIP-PFRHS, Job Monteiro, defendeu que o investimento na formação deve resultar em capacidade instalada no país, de modo que o conhecimento adquirido pelos profissionais permaneça nas instituições e possa ser aplicado e multiplicado.

Já o Diretor-Geral do CORPAAN, Bértil Miranda Afonso Cassoma, destacou a necessidade de transformar o conhecimento adquirido em benefícios concretos para os pacientes, considerando a impressão 3D uma oportunidade para elevar a qualidade e a capacidade de resposta da instituição.

A aposta surge num contexto em que Angola procura reforçar a formação dos profissionais de saúde e incorporar soluções tecnológicas capazes de responder a necessidades concretas da população. No âmbito do PFRHS, está prevista a formação de 38 mil profissionais até 2028, abrangendo diferentes categorias da saúde.

Apesar do potencial da tecnologia, a iniciativa encontra-se ainda numa fase inicial de implementação. A existência de uma impressora e a capacitação dos primeiros profissionais não significam, por si só, que Angola já disponha de uma produção de próteses 3D em larga escala. O desafio será transformar a experiência inicial num serviço regular, acessível e capaz de chegar a pacientes de diferentes regiões do país.

Para uma pessoa que perdeu um membro num acidente ou para uma criança que nasceu com uma alteração física, porém, o significado dessa mudança pode ser muito maior do que o equipamento instalado num centro de reabilitação. Se a tecnologia conseguir produzir dispositivos personalizados, seguros e acessíveis, a impressão 3D poderá ajudar a transformar uma limitação física numa oportunidade de recuperar mobilidade e independência.

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